São 10:32, o sol já me aquece a careca e está um dia bonito
de se ver, de orelhas levantadas, tento entender os ruídos de aviso, sobre as
chegadas dos comboios. Dá então entrada na estação o Inter-Cidades com destino
ao Porto, apresso-me a dar os últimos bafos no cigarro, que tinha acabado de
enrolar, pego na mochila e sigo até ao lugar que me foi atribuído, ora que
espectáculo, hoje tenho direito a assento à janela. Já sentado, instalado e
pronto a partir, encosto-me para trás e dou início ao deslumbrar da paisagem,
que uma viagem de comboio pelo nosso Portugal nos oferece. Adoro observar o
passar rápido das diversas vilas vistosas e movimentadas que rodeiam a linha
férrea, sinal que a desertificação é apenas uma miragem e que o nosso pais está
em franco desenvolvimento, devido ao êxodo urbano, que tem existido nos últimos
anos, finalmente Portugal corre com as duas pernas. Normalmente quando acabam
as pequenas vilas, rapidamente surgem grandes áreas de cultivo até perder de
vista, vinhas, oliveiras, cereais, árvores de fruto entre tantos outros
produtos agrícolas, que nós portugueses, sabemos tão bem cultivar e sempre com
altos índices de qualidade, já a meio da viagem dou por mim completamente
apaixonado pelas inúmeras fábricas que se erguem na paisagem, apresentando um
óptimo estado e a funcionar, grandes edifícios em tijoleira antiga, cheios de
gente a trabalhar alegremente a produzir belos artigos em cerâmica, a construir
estruturas de metais que irão ser utilizadas em estufas nos campos verdejantes
do nosso País, grandes armazéns cheios e prontos a carregar o próximo comboio
de mercadorias que passar. Dei comigo a pensar, que grande Portugal está lá
fora somos realmente um povo inteligente e com sorte. Até que! sinto um toque
brusco no ombro, abro os olhos, acordo e ouço – Bom dia, o seu bilhete? – diz
amavelmente o revisor, um senhor de bigode farfalhudo e de jeito pândego, entrego-lhe
então o bilhete para ser picado. Encosto-me outra vez para deslumbrar a
paisagem, agora mais desperto, começo a aperceber que tudo está diferente,
instala-se nesse momento um ambiente cinzento, o céu fica enublado, reparo que
afinal as bonitas vilas estão desertas, que os campos estão abandonados e as
imperiais fábricas e armazéns estão em ruínas e que nada mais se cria e se
guarda lá...
Foda-se!! era só um bonito
sonho, afinal de contas o grande Portugal continua manco e assim quer
continuar...



